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Navio Negreiro / Um Índio - Ao Vivo
Maria Bethânia
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Era um sonho dantesco, tombadilho
Tinir de ferros, estalar do açoite
Legiões de homens negros como a noite, horrendos a dançar
Negras mulheres levantando as tetas
Magras crianças cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães
Outras moças, mas nuas, assustadas
Num turbilhão de espectros arrastadas
Em ânsia e mágoas vãs
Um de raiva, delira, outro enlouquece
Outro, que de martírios embrutece, chora e dança ali
Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus
Se é loucura, se é verdade tanto horror perante os céus
Quem são esses desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba?
Dize-o tu, severa musa, musa libérrima, audaz
São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão
Homens simples, fortes, bravos
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão
Lá nas areias infindas
Das palmeiras no país
Nasceram crianças lindas
Viveram moças gentis
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus
Adeus, ó choça do monte
Adeus, palmeira da fonte
Adeus, amores, adeus
Senhor Deus dos desgraçados
Dizei-me vós, Senhor Deus
Se é loucura, se é verdade
Tanto horror perante os céus
Ó mar, por que não apagas
De tuas vagas, de teu manto este borrão?
Astros, noite, tempestade
Rolai das imensidades
Varrei os mares, tufão
E existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia
Deixa transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria
Meu Deus, meu Deus, mas que bandeira é essa
Que impudente na gávea tripudia?
Auriverde pendão da minha terra
Que a brisa do Brasil beija e balança
Antes te houvessem roto na batalha
Que servires a um povo de mortalha
Mas é infâmia demais
Da etérea plaga levantai-vos, heróis do Novo Mundo
Andrada, arranca este pendão dos ares
Colombo, fecha a porta de teus mares
Um índio descerá
De uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá
Numa velocidade estonteante
E pousará no coração do Hemisfério Sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada
Das mais avançadas das tecnologias
Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé, Filhos de Gandhy
Virá
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto
Em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de modo explícito
Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé, Filhos de Gandhy
Virá
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
Virá