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Ninguém Viu a Maria

DantasSD
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Ela chamava-se Maria... mas podia ser a tua irmã. Ou a tua vizinha. Ou aquela que já não vês de manhã. Andava sempre calada, sem marcas na cara, Mas no coração levava nódoas que o mundo não repara. Ele sorria em público, dizia “ela é tudo pra mim”, Mas portas fechadas... gritava como um demónio sem fim. Controlava o tele móvel, o cabelo, a roupa, a hora, Ela pedia espaço... ele fechava-a na demora. Ela chorava à noite, com medo que a filha ouvisse, E o medo virava rotina antes mesmo que amanhecesse. Era sempre ela que pedia desculpa, mesmo sem errar, E ele dizia “se não fosses assim... eu não tinha que te magoar”. Maria... ninguém viu. Mas tu gritavas todos os dias. Silêncio em volta, olhos no chão, E na alma... só cicatrizes frias. Na televisão falam em igualdade, em respeito, em lei, Mas o mundo ainda não aprendeu a ver quem já gritou “cheguei”. Porque muitos só acreditam quando veem sangue no chão, E esquecem que há feridas que só sangram no coração. A Maria tentou sair... duas vezes e meia. Na primeira voltou por medo, na segunda por ideia. Na terceira ele disse que mudava — chorou, ajoelhou, Mas três dias depois... a porta partiu e o braço dela também ficou. Os vizinhos ouviram... mas puseram a TV mais alto. Na escola a filha desenhava uma casa com vidro partido e as mãos no asfalto. O ciclo repete-se... geração após geração, E o mundo diz que é exagero, que é só drama ou invenção. Maria... foste tantas. Com nomes diferentes e dores iguais. Disseste “basta” com o olhar, Mas ninguém ouvia os teus sinais. E não são só elas... também há homens calados, Humilhados, feridos, psicologicamente esmagados. Mas o orgulho cala, a vergonha encarcera, E o medo é o mesmo: ninguém acredita se tu esperas. Violência não é só murro — é palavra, é gesto, é tom. É apagar a pessoa aos poucos, até ela já não ser ninguém, nem som. É cortar a autoestima com frases envenenadas, É matar devagar... com desculpas encenadas. O respeito desapareceu — hoje discute-se a gritar, Ninguém tem paciência, só querem dominar. E os filhos crescem com o eco do desespero, E aprendem que amor é medo, e carinho é exagero. Maria... mesmo quando partiste, Ainda te culparam no final. “Ela provocava”, disseram no velório, Como se o crime fosse... emocional. E se eu te disser que conheci a Maria... Ela trabalhava no café da esquina. E todos diziam “que moça educada”, Mas ninguém sabia que à noite... a alma era fustigada. Eu vi nos olhos dela um pedido mudo, Como se dissesse “se eu cair... lembra o meu tudo”. Mas só percebi depois da notícia no jornal, “Encontrada sem vida... mais um caso banal”. A Maria morreu... mas ela ainda está aqui. Na tua amiga, na tua mãe, na tua prima — ou em ti